Gentlemen’s Talks – Rui Pedro Braz

Gentlemen’s Talks – Rui Pedro Braz

ruipedrobraz

Desporto profissional, lugar de elegância para o homem? Fair Play, condição para um gentleman na prática do futebol? Ainda existem gentlemen no desporto em geral? O que é o futebol e desporto afins na nossa sociedade? Perguntas que foram  respondidas nesta entrevista por quem sabe de futebol como lugar desportivo e competitivo. Como nada escapa ao Gentleman’s Journal, quisemos entrevistar uma das figuras televisivas que mais sabe deste assunto. E, Rui Pedro Braz aceitou o desafio das perguntas.

1. O que faz um homem ser elegante?

Numa época em que a imagem é claramente sobrevalorizada e outros valores mais nobres acabam por cair um pouco em desuso, creio que a elegância pode e deve estar presente nos actos, no respeito, na educação, na simpatia, muito mais do que propriamente nas questões de ordem estética.

A forma como um homem comunica no dia-a-dia, a forma como se comporta no seu ambiente, a forma como se relaciona com todos os que o rodeiam, sejam familiares, amigos, colegas de trabalho ou até estranhos com quem se cruza nas mais variadas circunstâncias, acaba por ditar a imagem que passamos para os outros. É óbvio que a escolha adequada da roupa em função do momento, a combinação certa de cores e texturas, a elegância dos acessórios, o calçado, até mesmo a fragrância escolhida, o trato da pele, o corte de cabelo e o aparo da barba, tudo isto acaba por fazer (e muito!) a diferença no que concerne à imagem que retêm de nós. Mas se o conceito estético não se fizer acompanhar de comportamentos delicados e respeitadores, de palavras simpáticas e elegantes, tudo o resto fica inevitavelmente comprometido.

Por vezes, um acto de cavalheirismo, um gesto amigo, um sorriso simpático ou até mesmo um mero olhar cúmplice, acabam por ser os maiores argumentos de elegância que um homem pode usar e/ou protagonizar.

2. Quais são as peças imprescindíveis no guarda-roupa masculino?

Acima de todas as outras peças de vestuário, o inevitável blazer preto. Com camisa ou t-shirt, com calça de ganga ou calça de tecido, com ténis ou sapatos, de Verão ou de Inverno, um elegante blazer preto resolve todo e qualquer problema, mesmo nos momentos em que somos apanhados desprevenidos.

A camisa branca é, igualmente, um clássico indispensável. Em qualquer estação, em qualquer circunstância, uma camisa branca veste sempre bem. Seja no mais solene evento social ou profissional, seja num sunset em qualquer uma das esplêndidas praias do nosso País. Confesso que prefiro as peças mais simples e intemporais, prefiro ser conservador a ceder às tendências mais radicais da moda.

Abomino a ideia de poder olhar para fotos ou imagens minhas daqui a 10 ou 20 anos e pensar: “Como é que eu consegui usar uma coisa daquelas…”, e por isso mesmo tento defender-me. Contudo, e por mais paradoxal que possa parecer, admiro muito quem tem coragem para experimentar coisas novas sem qualquer tipo de complexo.

3. Tem role models na elegância masculina? Figuras que o inspirem?

Não sendo propriamente “role models”, confesso que há estilos que aprecio particularmente. Nomeadamente aquele ar “casual chic” de quarentões como Pep Guardiola ou Paulo Sousa, dois treinadores cuja imagem e comportamento aprecio particularmente.

E, lá está, aquilo que referia há pouco: conseguir aliar a questão estética à componente comportamental é meio caminho andado para alcançar uma imagem de elegância quase incontestável. Não é preciso vociferar, andar aos saltos e aos berros junto à linha lateral, insultar tudo e todos, fazer uso do palavrão fácil, atacar os adversários nas conferências de imprensa… A tranquilidade com que Paulo Sousa e Pep Guardiola exercem a sua liderança serena acaba por ser muito elegante. A fluidez do seu discurso é elegante. O respeito para com os adversários é elegante. Até a forma como aceitam a derrota, um momento sempre difícil para qualquer treinador, é muito elegante.

E creio que isso faz toda a diferença num mundo tradicionalmente conflituoso como é o mundo do futebol.

4. O fair play no desporto, nomeadamente no futebol, é sinal de elegância masculina?

Claramente. O “fair play”, no fundo, resume-se ao respeito pelos adversários, pela equipa de arbitragem, pelos colegas de equipa, pelos adeptos (em casa e no estádio), pelos jovens que querem seguir os exemplos dos seus ídolos e, acima de tudo, pelo jogo. O respeito pelo jogo é a maior homenagem que um jogador pode prestar ao desporto-rei. E esse respeito pode ser manifestado das mais variadas formas.

Jogando o melhor possível, demonstrando uma vontade inabalável de vencer, estando disposto a dar tudo dentro das quatro linhas, mas, acima de tudo, mantendo sempre presente que no final só pode ganhar uma equipa, e essa equipa nem sempre é a nossa. E é nos momentos mais difíceis, nas derrotas, nos resultados menos felizes, que se vê a verdadeira elegância dos protagonistas.

É nas derrotas que o “fair play” mais se deve fazer sentir, e, por consequência, a elegância que lhe é inerente. Supostamente, na vitória é mais fácil passar uma imagem de simpatia, respeito e coerência, mas mesmo assim, há muitos protagonistas que nem nesses momentos de superioridade conseguem ser elegantes. Esses até podem ser bons, mas nunca serão excelentes…

5. O Papa Francisco fala no desporto que se baseia «exclusivamente em critérios económicos para conseguir vitórias a todo o custo». Isto acontece no futebol português?

Se alguém tem legitimidade para falar nesses termos, é precisamente Jorge Mario Bergoglio, o Santo Padre Francisco. Nascido em Buenos Aires, cidade onde o futebol assume uma dimensão quase religiosa, quase espiritual, mas também onde os interesses económicos se sobrepõem muitas vezes aos valores do desporto. O Papa Francisco é, de resto, adepto confesso e fervoroso do San Lorenzo de Almagro, clube de um bairro de classe média da capital argentina, e viveu uma história rocambolesca em 1998, quando foi expulso do balneário do San Lorenzo pelo técnico Alfio Basile, figura mítica do futebol alviceleste. Na altura, o treinador entendia que os jogadores não podiam ser incomodados pelo então arcebispo Jorge Bergoglio.

Lá está, um claro exemplo de deselegância num momento em que os resultados da equipa não eram os melhores. Mas olhando mais em concreto para a realidade nacional, existe esse risco da “busca de vitórias a todo o custo”, claro que sim, as palavras do Papa Francisco aplicam-se a todos os países de primeira linha futebolística e o nosso não é excepção. O investimento desmesurado levado a cabo por alguns clubes este ano, numa altura em que a crise é notória em todos os sectores do nosso país, é claramente um contra-senso que pode redundar numa irresponsabilidade de graves consequências. É que no final, como sempre, só pode ganhar um…

Photos by Bruno Veiga
www.facebook.com/brunoveigaphotography

Gostou do artigo? Goste e partilhe!

Gentlemen’s Talks – Rui Pedro Braz

bookmark_border

mais em Gentlemen's Talks

Relógio de mergulho de precisão

a redireccionar em 10 segundos