Jean Gillon: a Jangada e a força do design brasileiro

Jean Gillon: a Jangada e a força do design brasileiro

Há peças que traduzem uma cultura através da matéria. Criada em 1968 por Jean Gillon, a Poltrona Jangada é uma dessas raras criações: inspirada nas tradicionais embarcações dos pescadores do Nordeste brasileiro, transforma uma referência profundamente local numa peça de design de extraordinária força escultórica.

Madeira maciça, couro e corda definem a sua construção, numa combinação em que o material não é apenas elemento estrutural, mas parte essencial da identidade do objecto. A trama de corda, inspirada nas redes de pesca, acompanha o corpo e contribui para o conforto, enquanto a madeira confere à poltrona uma presença sólida e intemporal.

Mais de cinco décadas depois, a Jangada mantém intacta a actualidade da sua linguagem. É simultaneamente funcional e escultórica, revelando uma das características mais marcantes do trabalho de Gillon: a capacidade de cruzar técnicas tradicionais, materiais naturais e uma visão moderna do objecto.

O saber-fazer como parte do desenho de Jean Gillon

Na Jangada, design e execução são indissociáveis. A reedição recupera a técnica original de construção da trama de corda, recorrendo ao conhecimento de pescadores para preservar um dos elementos fundamentais da concepção de Gillon.

Esse diálogo entre autoria e saber-fazer ajuda a explicar a permanência da peça. Mais do que reproduzir uma forma histórica, a reedição procura manter vivo o conhecimento que esteve na sua origem.

A chegada da Jangada a Lisboa integra a estratégia da QuartoSala de promover o conhecimento e a valorização do design brasileiro. A selecção da galeria coloca em diálogo diferentes gerações de autores, desde nomes fundamentais do modernismo, como Sergio Rodrigues, a criadores contemporâneos como Irmãos Campana, Jader Almeida e Marcio Kogan.

Jean Gillon ocupa neste percurso um lugar particular. A sua obra estabelece uma relação especialmente próxima com a cultura e os materiais brasileiros, partindo de referências locais para criar objectos que ultrapassam o contexto em que nasceram.

Da peça de mobiliário ao collectible design

É também esta dimensão de autoria e permanência que aproxima a Jangada do universo crescente do collectible design. Num mercado onde o mobiliário é cada vez mais valorizado enquanto expressão de cultura e coleccionismo, as peças com história, assinatura e identidade assumem um papel diferente no interior.

Deixam de ser apenas elementos funcionais para se tornarem parte da narrativa de um espaço — objectos capazes de introduzir carácter, memória e uma relação mais pessoal com o design.

Para a QuartoSala, essa visão é igualmente uma ferramenta de projecto. Em paralelo com a arquitectura e o mobiliário, são muitas vezes as peças especiais, com uma história própria e uma forte identidade formal, que conferem personalidade aos interiores.

Uma obra que permanece de Jean Gillon

A edição europeia da Poltrona Jangada é produzida pela Cobogó Gallery e chega a Portugal através da representação exclusiva da galeria pela QuartoSala.

Arquitecto, designer e artista, Jean Gillon foi uma das figuras relevantes do design brasileiro da segunda metade do século XX. A sua prática distinguiu-se pelo uso de madeira, couro e fibras naturais, pela atenção à relação entre o corpo e o objecto e pela capacidade de transformar referências culturais em formas contemporâneas.

Na Jangada, essa abordagem encontra uma das suas expressões mais completas. Uma peça nascida da paisagem e das técnicas do Brasil, mas que, mais de cinquenta anos depois, continua a afirmar que o verdadeiro design não depende da passagem das tendências. Depende da matéria, da autoria e do tempo.

Created in 1968 by Jean Gillon, the Jangada Armchair is one of the most distinctive expressions of Brazilian design, drawing inspiration from the traditional rafts used by fishermen in northeastern Brazil. Crafted from solid wood, leather and rope, the piece brings together natural materials, traditional craftsmanship and a distinctly modern silhouette.

More than five decades after its creation, the Jangada remains remarkably contemporary. Its rope structure, inspired by fishing nets, follows the body while contributing to comfort, while the sculptural construction reflects Gillon’s ability to transform local cultural references into enduring design.

The European edition, produced by Cobogó Gallery and represented exclusively in Portugal by QuartoSala, restores the original rope-weaving technique with the knowledge of fishermen. As collectible design continues to place greater value on authorship, history and craftsmanship, the Jangada stands as a compelling example of how Brazilian design can turn cultural heritage into an object of lasting relevance.

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