Fabricaal: quando o tempo se transforma em matéria

Fabricaal: quando o tempo se transforma em matéria

Entre o ritmo dos teares, as mãos que transformam a lã e um saber-fazer transmitido ao longo de gerações, a Fabricaal encontrou, desde 2020, uma nova forma de contar a história dos lanifícios portugueses. É essa transformação que Fabricaal: Tempo para o Tempo, livro com fotografia de Cátia Castel-Branco, acompanha ao longo dos primeiros seis anos de uma nova etapa para a fábrica de Reguengos de Monsaraz.

Com lançamento marcado para 26 de setembro, no Palácio Cadaval, em Évora, a publicação reúne fotografias, arquivos, testemunhos e diferentes materiais textuais e visuais para revelar não apenas aquilo que a Fabricaal produz, mas sobretudo as pessoas, os gestos e os processos que mantêm vivo um ofício com décadas de história. Com texto de João Brito, direção criativa de Pedro Figueiredo, fotografia de Cátia Castel-Branco e design de Joana Areal, o livro estabelece uma ponte entre património industrial, identidade alentejana e uma nova linguagem contemporânea.

Uma fábrica, uma nova história Fabricaal

“A Fabricaal nasce de um encontro improvável”, contam os três fundadores. Em 2020, António Carreteiro, make-up artist, Luís Peixe, gestor na área das telecomunicações, e Margarida Adónis, produtora de cinema, decidiram adquirir uma fábrica de lanifícios com mais de um século de atividade.

Num momento em que o futuro das instalações estava em aberto e a possibilidade de transformação do espaço numa unidade hoteleira chegou a ser equacionada, os três amigos escolheram outro caminho: preservar a história da fábrica e manter vivo o conhecimento construído ao longo de gerações.

Nascia assim a Fabricaal, não apenas como continuidade de uma atividade industrial, mas como um projeto de reinvenção. A ambição passava por encontrar uma expressão contemporânea para um saber-fazer profundamente ligado à tradição têxtil do Alentejo, transformando património em matéria de criação.

O artesanato como linguagem contemporânea

Os primeiros anos foram particularmente exigentes. A aventura começou em plena pandemia, com apenas quatro tecedeiras e num momento em que a casa, o conforto e os objetos que a habitam ganharam uma nova importância. Sem experiência prévia no setor, os fundadores encontraram novas formas de chegar aos clientes, recorrendo às vendas à distância através de telefone e email.

Desde então, a equipa cresceu para dez funcionários e o projeto consolidou-se através de investimento em formação, comunicação e internacionalização. Hoje, Estados Unidos, Itália, Bélgica e Alemanha estão entre os principais mercados da Fabricaal.

Para António Carreteiro, foi precisamente a aprendizagem contínua e a procura de novos produtos para o presente que definiram esta nova fase. O livro acompanha essa jornada, revelando uma identidade que se constrói entre técnicas tradicionais, novas parcerias e uma estética renovada.

Essa transformação tornou-se particularmente evidente no desenvolvimento da linguagem visual da marca. “Introduzimos novos padrões e desenhos, uma paleta com mais de 60 cores e diferentes interpretações das mantas alentejanas”, explica Margarida Adónis. O objetivo foi ampliar o vocabulário da fábrica e transformar objetos associados à tradição em peças capazes de dialogar com o design contemporâneo.

O tempo como matéria-prima

Na Fabricaal, o tempo assume uma dimensão particularmente importante. Está presente na história da fábrica, no conhecimento das tecedeiras, na lentidão dos processos manuais e na aprendizagem necessária para preservar técnicas que poderiam facilmente desaparecer.

É também essa relação com o tempo que o livro procura documentar. Fabricaal: Tempo para o Tempo não é apenas um registo de uma transformação empresarial ou estética; é um testemunho de como o património pode permanecer vivo quando existe vontade de o reinterpretar.

O futuro passa agora por aprofundar o diálogo com arquitetos, designers e artistas de diferentes áreas criativas, levando o saber-fazer da fábrica para novos contextos e explorando outras possibilidades de criação.

Entre tradição e experimentação, a Fabricaal encontra assim uma definição contemporânea de luxo: aquela que nasce da matéria, da mão humana, do conhecimento e, sobretudo, do tempo necessário para fazer bem.

Fabricaal: Where Time Becomes Craft

Fabricaal: Tempo para o Tempo is a new book documenting the transformation of a historic wool textile factory in Reguengos de Monsaraz, Alentejo, since its reinvention in 2020. Through photography, archives, testimonies and visual narratives, the book captures the people, gestures and processes behind a contemporary chapter of Portuguese textile craftsmanship.

Founded by António Carreteiro, Luís Peixe and Margarida Adónis, Fabricaal was created with the ambition of preserving the factory’s heritage while giving Alentejo weaving a new aesthetic language. What began during the pandemic with four weavers has grown into a team of ten, with Fabricaal now exporting to markets including the United States, Italy, Belgium and Germany.

With new patterns, more than 60 colours and contemporary interpretations of traditional Alentejo blankets, Fabricaal transforms heritage into objects for today. The project’s future lies in continued dialogue with architects, designers and artists, exploring new contexts for craftsmanship while proving that true contemporary luxury can be found in material, human skill, authenticity and time.

photos by Cátia Castel-Branco

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