Geopolítica molda as escolhas de férias

Geopolítica molda as escolhas de férias

Geopolítica molda as escolhas de férias

A instabilidade geopolítica está a alterar a forma como os consumidores viajam, escolhem destinos e planeiam as suas férias. Segundo o estudo How Conflict in the Gulf is Remapping Global Travel, da McKinsey & Company, o conflito no Golfo está a reconfigurar os fluxos turísticos internacionais, pressionando a aviação, influenciando as decisões de reserva e desviando a procura para destinos alternativos. Neste contexto, Portugal surge entre os mercados que registam sinais positivos, com o Algarve, o Porto e o Alentejo a destacarem-se pela evolução da ocupação hoteleira.

Apesar da incerteza geopolítica, a procura por viagens mantém-se resiliente. Os consumidores continuam a querer viajar, mas adotam uma postura mais prudente, privilegiando flexibilidade e adiando decisões até existir maior visibilidade sobre preços, rotas e condições de segurança.

Num inquérito realizado pela McKinsey junto de consumidores italianos, 74% afirmaram pretender viajar durante o verão de 2026. No entanto, 63% ainda não tinham concluído as suas reservas à data do estudo, refletindo uma preferência crescente por decisões tomadas mais perto da data da viagem. Além disso, 56% indicaram que os seus planos foram influenciados pela situação geopolítica. Ainda assim, apenas 3% cancelaram totalmente as férias, enquanto 24% optaram por adiar a decisão até existir maior clareza sobre a evolução do contexto internacional.

A segurança assume igualmente um peso crescente na escolha dos destinos. Nos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, entre 60% e 70% dos consumidores afirmam estar a ajustar os seus planos de viagem para os próximos meses devido à situação no Médio Oriente. Em todos os mercados analisados, a perceção de segurança surge entre os principais critérios de decisão, ultrapassando fatores tradicionalmente determinantes, como a conveniência ou o preço.

À medida que os viajantes reavaliam destinos e rotas, os fluxos turísticos internacionais começam também a reorganizar-se. O estudo identifica uma deslocação gradual da procura para destinos alternativos e mais próximos, tendência que está a beneficiar mercados afastados das zonas diretamente afetadas pela instabilidade.

Portugal destaca-se neste contexto. Entre março e abril de 2026, face ao mesmo período do ano anterior, o Algarve registou um aumento de 5,7 pontos percentuais na ocupação hoteleira, o Porto 3,3 pontos percentuais e o Alentejo 2,7 pontos percentuais. No mesmo período, outros destinos mediterrânicos também evidenciaram um desempenho positivo, nomeadamente Tânger (+9,9 p.p.), Alicante (+8,0 p.p.), Agadir (+7,5 p.p.) e Marbella (+7,1 p.p.).

A transformação é igualmente visível na conectividade aérea. Entre março e abril de 2026, o número de passageiros internacionais em trânsito pelos principais hubs do Médio Oriente diminuiu cerca de 5,1 milhões, o equivalente a uma quebra aproximada de 53% face ao período homólogo. Em resposta, companhias aéreas e passageiros recorrem cada vez mais a rotas alternativas e a voos diretos, acelerando a reorganização das redes globais de transporte aéreo.

Segundo a McKinsey, esta tendência poderá ter implicações significativas na competitividade dos destinos turísticos. Com base na análise de mais de 90 variáveis relacionadas com a procura internacional, a existência de voos diretos surge entre os fatores com maior capacidade para atrair turistas de lazer. À medida que os fluxos globais se reorganizam, a conectividade aérea poderá tornar-se um fator ainda mais determinante para conquistar procura internacional.

A atual conjuntura geopolítica está também a pressionar os custos operacionais da aviação. Num cenário ilustrativo analisado pela McKinsey, um voo entre Londres e Bombaim poderá registar um aumento de custos até 63%, devido às restrições do espaço aéreo e ao agravamento do preço dos combustíveis. Caso esse acréscimo seja repercutido nos passageiros, o preço dos bilhetes poderá aumentar entre 13% e 44%, dependendo da rota e da política comercial das transportadoras.

Embora alguns destinos estejam a beneficiar da redistribuição da procura, os impactos continuam a ser particularmente severos nos mercados mais expostos ao conflito. O estudo revela quedas expressivas da atividade turística e das receitas hoteleiras em vários destinos do Golfo. O Dubai regista a maior quebra observada, com uma redução de 75% nas receitas hoteleiras — equivalente a menos 1,8 mil milhões de dólares — entre março e abril de 2026, face ao mesmo período do ano anterior. Seguem-se Abu Dhabi (-49%), o Qatar (-43%) e Riade, na Arábia Saudita (-42%).

Num mercado turístico global em rápida transformação, compreender estas mudanças será cada vez mais importante para destinos, operadores turísticos e companhias aéreas. A capacidade de adaptação à nova realidade geopolítica, aliada ao reforço da conectividade e da perceção de segurança, poderá revelar-se decisiva para captar a procura internacional nos próximos anos.

Foto de Berat Cakirca na Unsplash

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