Fernando Pereira – Gentlemen’s Talks

Fernando Pereira – Gentlemen’s Talks

Fernando Pereira, um homem elegante. Faltava-nos esta conversa com um dos homens, em Lisboa, que mais percebe da alfaiataria e respectiva arte. Filho de comerciante formado na reputada Lourenço & Santos, e de mãe costureira de ilustres alfaiates lisboetas, é na Pigalle, loja de alta gama fundada pelo pai em Faro que, em 1977, inicia a sua vida profissional.
É já na posse de experiência no comércio e na distribuição de prestigiadas marcas internacionais em Portugal que, em 1998, Fernando, intuindo as mudanças que se avizinham no sector, aprofunda o seu conhecimento têxtil na empresa catalã Gorina s.a. e se inicia na arte do made to measure com casas de grande prestígio internacional como a italiana Ravazzolo.
Em 2002 decide embarcar numa aventura pioneira em Portugal fundando a suMisura Mestres de Medida Lisboa, totalmente dedicada à alfaiataria e camisaria por medida. Ao longo dos 18 anos de vida da casa, Fernando Pereira acima de tudo um apaixonado pelo seu metier, tem vindo a reunir não só experiência como um um abrangente e efetivo rol de parcerias com reputados artesãos, e artífices dos ofícios da tecelagem, alfaiataria, camisaria, sapataria e acessórios, que garantem a excelência das peças que a suMisura elabora para os seus clientes.

1 – O que é um homem elegante?

Eu chamaria um rapaz de nove anos de idade , nos idos anos 80, chamado Vitor Barroca Moreira que, numa parede, assim pintou o que seria para ele o Amor “É um pássaro verde num campo azul no alto da madrugada”, pois é para mim a mais assertiva.

Abordando de forma redutora, isto é, relativamente e tão só ao vestir, pré-pandemia seria algo como: Ser elegante é a consciência do “dress for the ocasion” sem qualquer esforço ou dúvida. Isto tem a ver com uma a cultura da sofisticação da simplicidade. Ser elegante a este nível está para além das dicas de como usar um fato, um blazer, uns chinos e possíveis combinações. Reparemos que a forma de abordarmos o tema não é “ter” mas “ser” elegante, o que implica valores que se prendem com equilíbrio de opostos e harmonia de géneros tanto nas cores como nas formas que para além da ocasião a elegância fale quem é. Ser magro, ser gordo, ser exuberante ou discreto, não têm a ver com elegância mas sim com conceitos efemeros de estética. Elegância apenas tem de refletir uma personalidade e ser muito facilmente inteligível pelo outro. E é por aqui que deve começar uma relação entre um estilista, um alfaiate ou um lojista e o seu cliente.

2 – Quais as peças indispensáveis no guarda-roupa de um homem e porquê?

Até há um ano atrás a resposta seria óbvia, após saber de que tipo de homem estaríamos a falar e do seu cotidiano e necessidades. Estou plenamente convencido que os protagonismos dos items de vestir vão sofrer profundas alterações.

No entanto, se falarmos do tipo de cliente que mais visita a suMisura, que é um homem activo, empresário, executivo ou profissional em áreas como a advocacia ou consultadoria e que procurasse construir o seu guarda roupa profissional eu diria para começar com os TOP FIVE imprescindíveis e a saber: Um fato antracite, um fato azul escuro, uma risca diplomática não maior que 20mm, um pequeno padrão (agrée, birds eye, salt & pepper, herringbone, etc.) e um blazer azul escuro, quiçá, com gosto apropriado, a peça mais versátil. Ter sempre um smoking e caso seja possível um fraque. Dada a pergunta não vou referir a casaca. Para o leisure, uns chino´s e uns jeans, um bomber e um sports jacket. Camisas brancas ou azuis pálido  para a semana de trabalho, dois polo-shirts e duas camisas em padrão desportivo para tempos descontraídos. Eu diria que estes são os básicos para que um homem esteja bem para qualquer evento ou ocasião. Apenas me referi ao modelo e padrão e deixei o mais importante para o fim.

O mais importante é saber onde se vive em termos climáticos e adequar os tecidos ao clima e à performance que se pretende. É aqui que entra o conhecimento do que é uma urdidura, a composição e peso dos tecidos, tanto em de alfaiataria como camisaria, e isto é tema para autênticos tratados. 

3 – Tem algum role model quando falamos de elegância masculina?

Na verdade, não. E todos os que possa referir são tão antigos que já ninguém se lembra. Confesso, sem qualquer tipo de moralismo ou julgamento que são de outros ofícios, que quando me chamam à atenção para alguém que é “Top”, hoje em dia, raras vezes achei elegância, muitas vezes exibicionismo. Um homem de barbas, exibindo tatuagens, adornado de metais, óculos escuros redondos, chama-se um dandy, um hipster… todos os anos sai um cromo a consumir das trends dos criadores. Elegância pende para o estilo e esse está com pouco espaço para se manifestar.

4 – Honoré de Balzac dizia na sua obra Do Vestir e Do Comer, que um homem se conhecia pela gravata que usava. Quer comentar? 

Claro que sim. Felicito-o pela pergunta. Beau Brummel, Wilde ou Balzac na verdade transportam-nos para o elegante de que temos estado a falar e a gravata é um assunto muito particular. Não sabemos o que vem, mas o que veio, não foi bom. Há uns anos atrás, um homem de cabelo abrilhantado, fato escuro, camisa aberta até ao peito exibindo um fio de metal precioso e um crucifixo seria, pela linguagem não verbal conotado com algo distante da liderança de uma séria.

Por outro lado, a quase excomunhão da gravata por parte de uma nova classe trabalhadora muito menos sedentária e mais solitária, espalhou-se a todas as áreas de serviços. Uma sociedade de advogados, uma empresa de auditoria ou um banco que usam (ainda) códigos de conduta e vestir e, o fato é geralmente escuro, quase todos de camisa branca, e agora sem gravata. Será liberdade do indivíduo ou corporativismo social? Um candidato a presidente da República, por alinhar neste corporativismo, no caso eleitoralista, de mal vestir, igual a qualquer outro, passou mais uma imagem de um homem culto acabado de sair de dieta severa do que de alguém enérgico e confiante.  A oferta de colarinhos de camisa existe exatamente para responder ao compromisso entre o tipo de pescoço (alto, baixo, fino ou volumoso) bem como ao uso e tipo de nó de gravata que melhor fica a cada um,  bem como a míriade de padrões, texturas e tecidos responde à estação do ano, apontamento de moda e, acima de tudo, fala de nós, enquanto em silêncio.

Eis que o cidadão tão diferente de outro cidadão, retirou a gravata, desabotoou  3 botões e descobriu um novo problema e necessidade: O colarinho que fique composto, sem gravata, para qualquer tipo de pescoço, o tudo em um que coloque alguma da dignidade perdida. Sinceramente, não auguro muito bom futuro a esta dama da elegância. O Sr. Balzac sabia, e muito bem. o que estava a dizer quando falava dessa peça de roupa acariciada quando posta.

5 – A moda masculina, nos últimos tempos, tem sofrido mudanças. Como vê o futuro do Made to Measure?

O made to measure é uma excelente solução para quem leva a sério o seu vestir, e que eu penso que deve chegar mais perto do consumidor do que até agora. O made to mesure não se remete ao “feito por medida” e a não se fica pelo fato de casamento ou o fato de trabalho. No caso da suMisura, a medida existe a toda a linha: tudo o que é possível fazer por medida, fazemos. Fato, camisa, blazer, malha, sapatos, snickers, gravata, chinos, jeans, acessórios é toda uma oferta que coloca o made to measure no pontifício entre a alfaiataria e a camisaria clássicas e o pronto a vestir e, no nosso caso, com uma oferta extensa de opções em smart casual e leisure.  Penso que em toda a cadeia a industria dos laníficios terá uma tarefa hercúlea e complicada pela frente e veremos essa mudança logo na origem nomeadamente nos rebanhos de merino da Austrália e Nova Zelândia que fornecem todo o mundo dessa fibra natural e nobre que é a lã superfina, que terá de competir com o têxtil tecnológico. As fábricas de confeções também terão o seu cabo das tormentas que passar assim consigam ultrapassar esta tempestade. Não vai ser fácil mas se há indústria que já deu provas de resiliência é esta e vai continuar.

Não sei o futuro e creio que ninguém tem por certo muito mais do que a certeza de que muitos parâmetros irão mudar, nomeadamente no consumo. Creio que o made to measure tem todas as armas para vencer a recuperação do pós pandemia e estou certo de que vai ter um maravilhoso reencontro com os clientes, assim possa recomeçar a trabalhar, os eventos regressem e os clientes a circulem e comprem sem receios nem restrições.  

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