O Capitólio, o Eu e a Pessoa

O Capitólio, o Eu e a Pessoa

O Capitólio, o Eu e a Pessoa. Não iremos entrar em questões da política e estrutura legislativa de um país das quais pouco conhecemos. Nem temos formação para tal.

Partilhar somente uma reflexão pós-acontecimentos no Capitólio norte-americano, que nos deixaram perplexos mas, não surpresos. Uma reflexão a partir das declarações dadas a uma TV por uma das personagens surreais autoras dos acontecimentos: “Eu encarno uma corrente de xamanismo …”.

Aqui reside o busílis da nossa reflexão/questão nascida de uma formação filosófica, onde as palavras são mais que meros vocábulos ou letras articuladas. A cultura do “Eu”, muito valorizada, sem dúvida, numa terra por desbravar em que as afirmações eram “eu fundei esta igreja”, “eu encontrei esta mina de ouro”, “eu prosperei nesta cidade pequena”, “eu fiz-me eleger para dirigir as cheerleaders”, “eu abri este banco” e muitas acompanhadas pela sensação obsessiva de temos de vencer na vida para não ser um Loser e/ou Looser (a ofensa que ouvimos constantemente nos filmes de adolescentes, ou seja, quase todos, que pretendem retratar o quotidiano normal americano).

Muitos poderão dizer, “mas a descoberta do Eu foi muito importante em sociedades em que o homem e a mulher eram somentes peões sem aspirações. E que foi o Novo Mundo que nos trouxe essa noção. O Eu é uma inspiração para o auto-desenvolvimento e para ultrapassar crises pessoais ou laborais”.

Sem dúvida, que têm razão. O pensamento evoluiu empurrado muitas vezes, ou, demasiadas vezes, pela realidade. E a descoberta do Eu foi importante.

Porém, antes da descoberta do Eu, séculos antes, descobriu-se a Pessoa. Na Antiguidade Clássica, tanto romanos como gregos tinham este termo, cada um com especificidades: os romanos, como sempre práticos, utilizavam no direito como “pessoa jurídica” e os gregos, nos campos filosófico e artístico (Prosopon). 

Mais tarde, o termo “pessoa” foi utilizado para resolver as questões teológicas relativas à Trindade e à Cristologia. A partir de Santo Agostinho, o termo “pessoa” começa a ser aplicado ao homem e indica, assim, até de maneira quase exclusiva, o ser humano e sua incomparável dignidade.

A Pessoa é um ser em relação, é um individío (como o termo já diz, singular ou na biologia, um organismo) que estabelece conexões entre si e os outros, entre si e o mundo, entre si e a natureza. E, sem as quais, definha.

A ocasião de tal reflexão ocorreu principalmente a partir das disputas teológicas acerca dos grandes mistérios da Trindade e da Encarnação, a cuja solução contribuiu, de forma decisiva, a formulação exata do conceito de pessoa, como afirmou Battista Mondin, antigo professor em Harvard.

O termo “pessoa” tornou-se, aos poucos uma palavra-chave da antropologia ao ponto de ofuscar o sentido recebido nos Concílios de Nicéia (325) e Calcedônia (451). Nestes, o termo “pessoa” foi utilizado para falar de Deus e de Cristo; e, na época moderna, este termo parece ser utilizado apenas para falar do homem. O interessante é que esta palavra pessoa (persona) foi utilizada por Tertuliano (Século II) para explicar as relações na Trindade Divina. Três pessoas em perfeita comunhão numa só divindade. Pessoa=relação.

Temos um termo que chega ao século passado e que inspira uma corrente filosófica de teor humanista, Personalismo, começada por Emmanuel Mounier em finais dos anos 20.

Toda esta reflexão advem do “Eu encarno…”, o perigo do demasiado Eu, o egocentrismo pessoal, comunitário ou mesmo, de líderes. Numa relação afectiva, numa empresa, numa sociedade, um Eu inflamado é uma doença. “And where sickness thrives, bad things will follow” (The Hobbit).

O remédio? viver em sociedade, hoje em dia, é alimentar um Eu e usar como Pessoa. Quem sabe, os dois termos não convivem pacificamente se cada um de nós formos educados e formados para viver o seu Eu como uma Pessoa. Sempre em relação, pensando que não “vingamos” sozinhos, que as soluções não passam somente por um herói como num filme, que as pessoas não são todas iguais ou que a Liberdade, como muito bem pregava a Revolução Francesa, não vive sem a Igualdade, e mais ainda, sem a Fraternidade. Quem sabe?

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O Capitólio, o Eu e a Pessoa

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