A propósito de um artigo da Forbes.com (versão inglesa) sobre a relação Portugal – Menswear e a nossa capacidade de afirmar a nossa criação e produção do mesmo, muito foi conversado e discutido, por isso gostava de partilhar convosco algumas meditações pessoais sobre o assunto.
De facto, como acaba o supracitado artigo, não necessitamos de Beckham para a assunção e divulgação do menswear português à escala nacional e internacional, e perguntam porquê?
Na verdade, temos muitas mais-valias nacionais no campo da moda masculina com projecção internacional sejam profissionais no campo da moda como modelos, onde Portugal dá cartas, veja-se o caso dos irmãos Sampaio, Gonçalo Teixeira, Francisco Faria (desfilou para Dolce&Gabbana) ou Pedro Pinto (Campanha da Diesel e outras marcas) ou como designers de moda como Miguel Vieira, Nuno Gama e João Estelita Mendonça, que apresentou há pouco tempo em Londres no evento London Collections Men.
Por outro lado, temos uma grande tradição em alfaiataria com talentos “novos” a despontar e talentos “antigos” ainda no mercado e mais ainda, temos bons níveis de manufactura, confecção e produção ao nível têxtil e de materiais. Com o trabalho de três anos no meu website, pude visitar e conhecer muitos casos, seja de produção têxtil como de sapatos.
Não é difícil identificar marcas com produção masculina presentes no mercado português como Dielmar, Wesley, Vicri ou Lion of Porches, algumas delas presentes na última edição do Portugal Fashion.
Acrescentamos ainda que temos uma nova geração de jovens formados pelas inúmeras faculdades de design de moda, sejam designers como investigadores (licenciados, mestrados e doutorados); podemos observar isso nos novos talentos lançados pela ModaLisboa, como Nair Xavier ou Patrick de Padua.
Mas, com tudo isto, o que nos falta para nos afirmarmos no mundo do menswear e dar o salto? Como divulgar e incentivar a compra do “made in Portugal”?
Alguns factores impedem-nos de dar este salto:
- O homem português não foi educado para uma cultura de elegância e de cuidado com a moda. Não está no nosso gene. Está habituado ao cinza e ao pouco cuidado consigo e sempre dependente da mãe, mulher ou afins. Portanto, o consumidor da moda portuguesa masculina precisa de se reeducar;
- A nossa sociedade portuguesa precisa de dar importância ao negócio da moda e não olhar de modo condescendente como um “fait-divers” de alguns excêntricos. Tem profissionais e tem uma indústria com rendimentos. Existe um jornalismo de moda sério e não é só assunto de umas “revistas de senhora” ou de umas bloguers adolescentes.
- Os designers de moda precisam de focalizar o seu trabalho e estabelecer estratégias a longo prazo para a sua própria marca perdure. Ter noção de estratégia e de marketing. E, para isso, precisam também de incentivos seja de organizações sejam do estado para “vingarem” e não “morrerem na praia”, ou melhor, na passerelle.
- Como refere o artigo da Forbes, necessitamos todos, os agentes e promotores da moda masculina, olhar o homem real português e ver como reage, vive e os seus anseios para saber responder aos mesmos com propostas de moda adequadas.
- Precisamos de comunicação de moda masculina séria e com qualidade. Que é diferente de jornalismo de moda mas complementa-o. O nosso jornalismo de moda masculina está reduzido em números de efectivos, por razões que todos nós sabemos e porque, como um circulo vicioso, o público não está educado para procurar publicações de moda masculina.
- Os agentes de moda (designers, investigadores, comunicadores, jornalistas, marketeers, etc.) no nosso país (como em muitas áreas da nossa sociedade) não sabem trabalhar em conjunto, trabalham em círculos muito privados mas não sabem o que é planear em conjunto. Como em muitos “mundos” da nossa sociedade, não temos um olhar mais além, somos episódicos e fenoménicos.
- As próprias marcas lusas ainda não sabem aproveitar os vários meios ao seu dispor, o seu investimento é baixo em comunicação e marketing. O caso da comunicação escrita online é sintomático, ainda se joga o jogo de muitas visualizações em pretérito do posicionamento e da qualidade. Em tudo isto existe uma reeducação de valores de marca e de posicionamento.
Não seriamos nós capazes de apoiados na moda masculina nacional, promover o nosso país?
Se dizem que os homens portugueses são os mais bonitos da Europa e um mercado a crescer? Se temos todos estes factores positivos que referi no começo?
Creio que seremos capazes de ultrapassar os pontos menos positivos também realçados. Não acredito no pessimismo nem no positivismo mas acredito no bom trabalho que podemos fazer pela nossa marca “made in Portugal” se soubermos fugir ao lucro fácil, ou seja, sermos capazes de pensar a longo prazo e atempadamente (veja-se o caso menos positivo do turismo) e trabalhando em conjunto pelo menswear português. Isto são meras reflexões…
artigo original em Visão.pt







