Fernando Caetano, responsável pelo lançamento da Essential Lisboa em 2004, é figura incontornável no conhecimento da qualidade e do mercado de luxo tanto ao nível nacional como internacional. Reconhecido como homem de extrema elegância e cuidado, o Gentleman’s Journal questionou-o sobre estes assuntos e a cultura do luxo em Portugal.
1. O que faz um homem ser elegante?
Socorro-me de dois clássicos que, apesar de velhinhos, continuam actuais na essência no que diz respeito à natureza e definição da elegância: o “Tratado da vida elegante” escrito em 1830 por Balzac e “O livro do cortesão” de Baldesar Castiglione, publicado em 1528. Escusado será dizer que são ambos leitura obrigatória (existem traduções em português) para quem se interessa por este tema e queira perceber a evolução do mesmo.
Para o autor da Comédia Humana, arguto observador dos fenómenos sociais: “A vida elegante é a perfeição da vida exterior e material. Ou então: a arte de despender as suas rendas como homem de espírito. Ou ainda: a ciência que nos ensina a não fazer nada como os outros, mas aparentando fazer tudo como eles. Mas talvez melhor ainda: o desenvolvimento da graça e do gosto em tudo aquilo que nos é próprio e nos rodeia.”
De “O livro do cortesão” retiro apenas o conceito de ‘sprezzatura’, a “regra universal”, pedra angular do estilo sem a qual não existe elegância e que consiste, nas palavras do renascentista Castiglione, em “…fugir tanto quanto possível, como um escolho muito acerado e perigoso, da afectação (…) e dar provas em todas as coisas de uma certa ‘sprezzatura’, que esconda a arte e mostre que o que se faz e diz surgiu sem dificuldade e quase sem pensar nisso. É daí, creio, que deriva sobretudo a graça…”.
2. Quais são as suas peças imprescindíveis no guarda-roupa masculino?
Fato e sapatos ou do que não prescindo no imprescindível. O fato continua a ser a peça maior de qualquer guarda roupa. Pura arquitectura com tudo o que isso implica, é ele que tudo revela. Idealmente confeccionado por um alfaiate ou, pelo menos, executado por medida, num bom tecido (o eterno dilema entre a resistência britânica e o preciosismo italiano) e com um bom corte, é meio caminho para um homem ascender a numa nova dimensão.
Se o fato é o edifício, os sapatos são as fundações. Tenho uma predilecção especial por “double monk strap”.
3. Tem role models na elegância masculina? Figuras que o inspirem?
Figuras públicas mais recentes como David Niven, Duque de Windsor, Luchino Visconti ou Gianni Agnelli entre outros, sempre me impressionaram pela sua irrepreensível aparência e estilo.
No entanto, numa perspectiva mais alargada do belo e da elegância, os que mais me fascinam são os dandies do séc XIX e início do Séc. XX, poetas e escritores como Byron, Balzac, Baudelaire, Oscar Wilde, Proust, Gabrielle D’Anuzzio ou os nossos Teixeira Gomes e o imaginário Fradique Mendes, que não só propalaram como viveram os seus ideais estéticos.
4. Existe uma cultura em Portugal de luxo e elegância? Pela sua visão, está em crescimento?
Apesar de algumas excepções, não creio que a cultura do luxo, da elegância e do belo, exista em Portugal. Ao contrário de países como Itália, França e Inglaterra (a ordem não é arbitrária), o luxo em Portugal sempre foi fenómeno diminuto, velado e sem consistência. A pobreza e a religião são certamente factores que contribuíram para isso num país em que, apesar dos progressos económicos e culturais do último século, a fuga à banalidade e o culto da excelência, sem o qual o luxo não existe, continuam a ser, genericamente, mal vistos.
É verdade que o surgimento da indústria do luxo (democrático) e a sua chegada a Portugal criou entre nós uma percepção diferente do fenómeno e nesse sentido são mais os que estão despertos para essa realidade mas isso não obsta ao acima afirmado.
